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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

2001: Mulholland Drive - David Lynch (E. U. A.)


Género: Drama, Thriller
M/16
Sinopse/Comentário: Betty Elms (Naomi Watts) chega a Los Angeles para escrever o sonho comum em Hollywood: tornar-se numa estrela de cinema. Contudo, na terra dos sonhos, há uma linha muito ténue entre a realidade e o onírico.  Betty será mais tarde no filme Diane Selwyn, como, parece, sempre terá sido: quem pretende adotar distintas identidades - sucintamente, é essa a função de um(a) ator/atriz - consegue convencer-se facilmente de que se é outro. Entretanto, "Betty" conhece X, ou Rita, como a amnésica personagem representada por Laura Harring - Miss USA 1985, por curiosidade - se autodenomina após ver um poster de Rita Hayworth, diva do cinema norte-americano na década de 40. Porém, "Rita", a recuperar do acidente de viação que a desmemoria, pensará que é Diane, antes de vermos o seu rosto numa foto com o nome Camilla Rhodes, como havíamos visto o rosto de Melissa George numa foto com o mesmo nome. Identidades dissolvem-se amiúde em Mulholland Drive, seguramente a obra cinematográfica pós-moderna por excelência, onde a quebra das fronteiras ontológicas é constante - estamos sempre entre a realidade e o sonho, entre a verdade e a encenação (pensemos no exemplo supremo do Club Silencio).

Talvez seja a inusitada natureza do filme que cativa muitos dos melhores críticos cinematográficos. Numa recente votação acerca dos melhores filmes do século XXI (quase 200 críticos internacionais votaram a pedido da BBC), Mulholland Drive ocupou o 1.º lugar. A difícil apreensão do que se passa em Mulholland Drive eleva - sem dúvida(s) - o filme, mas também a música insinuosa de Angelo Badalamenti e as inúmeras cenas inesquecíveis: os episódios no curral, no Club Silencio, no restaurante; o episódio do café e mais tarde do casting da "Little Star" Camilla Rhodes, a título exemplificativo. Como sonhos ou pesadelos marcantes, Mulholland Drive fica na memória como uma obsessão, como "Rita"/"Diane"/Camilla para "Betty"/Diane. David Lynch tem esse efeito - já o sabíamos no virar do século, porque antes houvera, entre outros, Blue Velvet (1986), Lost Highway (1997) ou a série televisiva Twin Peaks; depois houve ainda Inland Empire (2006) ou o regresso de Twin Peaks, este ano. "Difícil", "denso" ou "genial", pelo menos sabemos que David Lynch pede sempre ao fogo criativo que o acompanhe.

Rankings:
Sight & Sound (2012) - realizadores: 75.º (2.º ex-aequo do século XXI)
Sight & Sound (2012) - críticos: 28.º (2.º do século XXI)
Cahiers du  Cinéma (2008): 94.º (2.º do século XXI)
BBC (2016): 1.º do século XXI - votação exclusiva acerca de filmes desde 2000
(http://www.bbc.com/culture/story/20160822-the-21st-centurys-25-greatest-films)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

1982: Blade Runner - Ridley Scott (Inglaterra)


Género: Ficção Científica
M/12
Sinopse/Comentário: Baseado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968), de Philip. K. Dick, Blade Runner é um dos mais aclamados filmes de ficção científica de sempre, mesmo que a futurista Los Angeles de 2019 nos pareça hoje um pouco distanteRick Deckard (Harrison Ford) é um Blade Runner, polícia reformado que é novamente chamado para retirar (eliminar) os replicants - impercetíveis andróides de feições e sentimentos humanos, vítimas de trabalho escravo - que se amotinaram contra os seus donos. Deckard cumpre a sua função quase sem hesitação, apaixonando-se entretanto por uma bela replicant, Rachel (Sean Young), que descobre assombrada a sua verdadeira natureza. Roy Batty (Rutger Hauer), o mais perfeito dos Nexus 6, já desvendara há muito a sua e procurará no seu criador a salvação para Pris, a sua amada, condenada - como todos nós - à morte programada.

A insinuada religiosidade de Blade Runner é uma das razões para a surpreendente elevação do filme, dez anos após a estreia. O filme de 1982 fora adulterado pelo estúdio e só em 1992, com o Director's Cut, foi possível aceder à prístina visão de Ridley Scott, que eliminou cenas redundantes e a voice-over de Deckard, totalmente deslocada do obscurantismo do filme, traço que evoca os film noir da década de 40. The Director's Cut (1992) é, pois, a versão decisiva, embora The Final Cut (2007) seja a preferida do próprio Scott; apenas nuances a separam da versão de 1992 e está tudo lá: o cenário futurista de LA - imagem aumentada da Metropolis (1927) de Fritz Lang -, o deslumbrante brilho fotográfico do filme, a precisa música de Vangelis e a ambiguidade dos replicants, mormente Roy, ser física, intelectual e, porventura,  humanamente superior a nós. E há também Deckard e Rachel, feitos um para o outro, como infamemente é dito na versão original.

Rankings:
Sight & Sound (2012) - realizadores: 67.º
Sight & Sound (2012) - críticos: 69.º
The Village Voice (2000): 94.º

sexta-feira, 7 de julho de 2017

1931: City Lights - Charles Chaplin (Inglaterra)


Género: Comédia, Drama
M/6
Sinopse/Comentário: The Tramp (protagonizado por Charlie Chaplin em múltiplos filmes), mais conhecido em várias línguas como Charlot (ou O Vagabundo, em português), é seguramente uma das mais famosas personagens da História do Cinema: um louvável homem de classe social baixa vestido de gentleman que, com a sua curiosa aptidão para o acidente cómico, admiravelmente tenta compor o mundo que lhe é próximo. Em City Lights, porventura o mais completo dos filmes norte-americanos de Chaplin, The Tramp apaixona-se por uma florista cega (Virginia Cherrill), cuja visão tenta reabilitar arranjando dinheiro para a operação. O acaso faz com que The Tramp salve um milionário (Harry Myers) do suicídio; a amizade que trava com este poderá ser a solução para a florista, mas se o vagabundo de Chaplin é um homem puro estando sóbrio ou bêbado, a benevolência do milionário não se vislumbra fora da ebriedade.

A florista recuperará a visão, mas a sua visão do mundo permite-lhe apenas perceber que a bondade vem de um homem rico, isto é, com posses. A conclusão de City Lights é uma das melhores de sempre pelo seu páthos: embora o final seja aberto, antevemos a decepção suprema - não é preciso ver mais.

Rankings:
Sight & Sound (2012) - realizadores: 30.º
Sight & Sound (2012) - críticos: 50.º
Cahiers du  Cinéma (2008): 17.º
The Village Voice (2000): 38.º

terça-feira, 4 de julho de 2017

Os melhores filmes de sempre: 1927, 1931, 1934 e 1939

Retomamos a nossa série dos melhores filmes de sempre com quatro dos maiores, todos das décadas de 20 e 30 (filmes tematicamente relacionados: cidade, campo; amor, traição). Se coubesse apenas aos críticos dos Cahiers du Cinéma (votação de 2008), três destes filmes entram no Top 5 da História; os mesmos três ocupam também o Top 10 dos melhores de sempre para os críticos que votaram para a publicação The Village Voice (2000). Falamos dos filmes do alemão F. W. Murnau e dos franceses Jean Vigo e Jean Renoir.

O nosso preferido dos quatro é a obra-prima de Charles Chaplin, City Lights (1931), igualmente bem posicionado nos rankings de respeito. No nosso último post, falamos de boxe. Aqui fica a divertida e sempre surpreendente cena de boxe de City Lights.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

1963: 8 ½ - Federico Fellini (Itália)


Género: Drama, Fantasia
M/12
Sinopse/Comentário: O nono filme de Federico Fellini, autor já consagrado na altura: Palme d'or por La Dolce Vita (1960) e dois Óscares de Melhor Filme de Língua Estrangeira por La Strada (1954) e La Notti di Cabiria (1957). ½ foi o seu terceiro de quatro, um dos filmes prediletos de realizadores de todo o mundo (4.º lugar no mais recente Ranking dos Realizadores da Sight & Sound).

O fabuloso Marcello Mastroianni é Guido Anselmi, realizador num impasse criativo - obviamente um alter-ego do próprio Fellini, acossado pela falta de ideias para um novo  filme. Estas germinarão no filme a fazer, o nono da sua carreira. A angústia de Guido faz com que todas as personagens secundárias da sua vida venham à superfície e se conjuguem em situações improváveis ou quiméricas. A indecisão de Guido é ela própria o filme - o filme da sua vida, em que realidade e ficção se confundem. Porventura o maior filme acerca de fazer filmes, ou o maior filme sobre a angústia criativa, desmontada da forma mais criativa/original/inteira possível.

Rankings:
Sight & Sound (2012) - realizadores: 4.º
Sight & Sound (2012) - críticos: 10.º
Cahiers du  Cinéma (2008): 46.º

sexta-feira, 21 de abril de 2017

1954: Seven Samurai - Akira Kurosawa (Japão)


Género: Ação, Drama
M/12
Sinopse/Comentário: Um jidaigeki (drama de período) no Japão do século XVI. De modo a defenderem-se de cerca de quarenta bandidos que atacam periodicamente a sua aldeia, agricultores indefesos contratam sete samurais, embora possam apenas pagar com mantimentos cultivados. Na verdade, são seis os samurais, uma vez que o sétimo, Kikuchiyo (Toshiro Mifune), é o filho de um ex-aldeão que se faz passar por samurai. Será acolhido pelo grupo, mas não tanto os sete pelos camponeses, que olham para os guerreiros com temor e desconfiança, em virtude de experiências passadas. Estes sete são louváveis, contudo, liderados magistralmente por Kambei (Takashi Shimura), que elabora todo o plano de defesa/ataque.

A honra e a valentia dos sete - cujo exemplo supremo é Kyuzo (Seiji Miyaguchi) -, a comicidade de Kikuchiyo/Mifune, a (proibida) história de amor de Katsushiro (Ko Kimura), o jovem samurai, com uma aldeã e o doloroso final elevam a categoria do filme, um dos mais admirados quer por realizadores orientais quer por ocidentais, que contemplam Seven Samurai não só como um dos primeiros grandes filmes de ação, mas também como um monumento de bravura e sacrifício humano.

Rankings:
Sight & Sound (2012) - realizadores: 17.º
Sight & Sound (2012) - críticos: 17.º
Cahiers du  Cinéma (2008): 57.º
The Village Voice (2000): 23.º

quarta-feira, 19 de abril de 2017

1953: Tokyo Story - Yasujiro Ozu (Japão)


Género: Drama
M/12
Sinopse/Comentário: Um velho casal, Shukichi e Tomi Hirayama (Chishu Ryu e Chieko Higashiyama, respetivamente), visitam dois dos filhos que vivem em Tóquio, a capital japonesa que finalmente conhecerão. Contudo, os seus filhos, adultos empregados e com família estabelecida, pouco ou nenhum tempo dedicam aos pais. Um terceiro filho, em viagem, também não tem tempo para os pais - somente a louvável Noriko (Setsuko Hara), a nora viúva, passa tempo com o casal idoso, que não encontra lugar na industrializada e acelerada sociedade japonesa.

O enredo é simples, digamos, mas é precisamente a universalidade desta Tokyo Story (o título em inglês) que faz de Viagem a Tóquio uma história comum a todos os homens e mulheres: pais e filhos envelhecem, a vida avança e o tempo e a dedicação para com aqueles que nos são mais próximos escasseiam até um ponto sem retorno. A enorme simplicidade do conteúdo tem reflexo na forma: há apenas um movimento de câmara em todo o filme; os restantes planos estão imóveis, como se o nulo esforço dos filhos fosse o inexistente motor do filme.

Os maiores filmes de sempre têm quase todos um fim desolador. É o caso de Viagem a Tóquio - é impossível que o espectador não pense no final que a leve lição de Yasujiro Ozu é das mais significativas da Humanidade. Também por isso, o filme ganhou um estatuto impressionante nas últimas décadas: o 3.º melhor filme de todos os tempos para os críticos sondados pela Sight & Sound; simplesmente, o melhor de sempre de acordo com os realizadores.

Rankings:
Sight & Sound (2012) - realizadores: 1.º
Sight & Sound (2012) - críticos: 3.º
Cahiers du  Cinéma (2008): 14.º
The Village Voice (2000): 36.º


quarta-feira, 1 de março de 2017

1958: Vertigo - Alfred Hitchcock (Inglaterra)


Género: Thriller
M/12
Sinopse/Comentário: John 'Scottie' Ferguson (James Stewart) é um polícia reformado devido à sua acrofobia. Ciente da condição de Scottie, o milionário Gavin Elster (Tom Helmore) contrata-o como detetive privado para seguir a mulher, Madeleine (Kim Novak), que, segundo o marido, está possuída pelo espírito da Carlota Valdez, falecida há décadas (suicídio). Scottie fica obcecado por Madeleine e tenta convencê-la de que não reincarna Carlota, lutando contra a sua vertigem e a insistência de Madeleine. A obsessão de Scottie atinge o pico quando conhece Judy Barton (novamente Kim Novak), que o ex-polícia tenta moldar à imagem de Madeleine.

Vertigo atingiu recentemente o cume dos rankings cinematográficos (considerado em 2012 como o melhor filme de sempre pela revista Sight & Sound), resultado da contínua subida em polls do género (vide rankings de The Village Voice ou dos Cahiers du Cinéma). A atração pelo filme explica-se pela identificação do espectador com Scottie (a sua simpatia, obsessão e sentimento de culpa), pela memorável música de Bernard Herrmann, pelo postal de São Francisco e pelo controlo do suspense por parte do maior dos mestres, Alfred Hitchcock, talvez o maior realizador de todos os tempos. Junte-se a Vertigo os inesquecíveis Notorious (1946), Rear Window (1954), North by Northwest (1959), Psycho (1960), The Birds (1963) ou tantos outros de qualidade ímpar e - aqui não há mistério algum - temos seguramente uma das melhores filmografias da História do Cinema.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

1926: The General - Buster Keaton e Clyde Bruckman (E. U. A.)


Género: Comédia, Ação
M/6
Sinopse/Comentário: Durante a Guerra Civil Americana, soldados da União roubam a locomotiva (de nome "General") de Johnnie Gray (Buster Keaton), no qual se encontra Annabelle Lee (Marion Mack), a mulher por quem o maquinista está apaixonado. Perseguir um comboio com outro comboio não é a tarefa mais fácil, mas é a única forma de Gray salvar os seus dois amores, a locomotiva e Annabelle, que insiste em ser convencida da paixão do maquinista, sobretudo porque esta esperara que Gray se tivesse juntado à Confederação, como fizeram o pai e o irmão da sulista.

Porventura a mais elaborada das comédias do cinema mudo (vide igualmente Sherlock Jr., de 1924, do mesmo Keaton), The General é simultaneamente um filme de ação e uma comédia física, traços distintivos dos filmes de Buster Keaton, o único realizador/ator que pede meças no âmbito da comédia do cinema mudo a Charles Chaplin.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

2007: There Will Be Blood - Paul Thomas Anderson (E. U. A.)


Género: Drama
M/12
Sinopse/Comentário: Filme em parte baseado no romance Oil! (1927), de Upton Sinclair, acerca de um prospector de petróleo, Daniel Plainview, que explora terrenos férteis na Califórnia das primeiras décadas do século. A oposição a Plainview surge do pregador Eli Sunday (Paul Dano), mas este é o tempo do advento do capitalismo, que Plainview, portentoso self-made man, domina como nenhum outro, sem escrúpulos.

Haverá Sangue no fim, embora haja sobretudo Daniel Plainview/Daniel Day-Lewis a dominar todo o filme, na mais imaculada de todas as representações em pouco mais de um século de Cinema (o seu segundo de três Óscares de Melhor Ator - um recorde da Academia). There Will Be Blood (recentemente eleito como um dos três melhores filmes do século*) eleva-se com Daniel Day-Lewis, mas também com a música de Jonny Greenwood (Radiohead) e, claro está, com a visão total de Paul Thomas Anderson, autor maior acerca da identidade da América (vide Boogie Nights, Magnolia, The Master ou Inherent Vice).



1979: Apocalypse Now - Francis Ford Coppola (E. U. A.)


Género: Guerra
M/18
Sinopse/Comentário: O exército norte-americano envia o Capitão Willard (Martin Sheen) para o coração do Vietname numa missão secreta: eliminar o Coronel Kurtz (Marlon Brando), sobredotado compatriota que atua sem freio, livre de regras marciais e de juízos humanos. Como Marlowe em Heart of Darkness (livro de 1899 do escritor polaco/britânico Joseph Conrad que serve de base ao filme), Willard, também nosso narrador, vai-nos dando a conhecer Kurtz, que surge apenas no último terço do filme após uma das mais ousadas Odisseias do Cinema: longa viagem até às trevas da humanidade - ou ao "horror" da desumanidade.

Kurtz/Marlon Brando e Willard/Martin Sheen são personagens/atores enormes, como memoráveis são o Tenente-Surfista Kilgore (Robert Duvall) ou o excêntrico fotojornalista (sem nome), desempenhado por Dennis Hopper; porventura superiores são a deslumbrante fotografia de Vittorio Storaro (vencedor do respetivo Óscar), o som/banda sonora do filme e o trabalho final de Coppola, que colocam Apocalypse NowPalme d'Or ex-aequono centro da realização cinematográfica.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

1941: Citizen Kane - Orson Welles (E. U. A.)


Género: Drama, Mistério
M/12
Sinopse/Comentário: O filme começa com a morte de Charles Foster Kane (desempenhado pelo próprio Welles), que solta uma palavra no seu suspiro final: "Rosebud". Kane (personagem inspirada no magnata William Randolph Hearst) fora uma figura de proa da sociedade norte-americana: rico, vivera em Xanadu, um castelo enorme, cheio de esculturas, que mesmo assim não enchiam a enorme mansão; fora também uma personalidade influente - editor de um jornal, político conflituoso -, por isso os jornalistas tentarão descobrir o significado de "Rosebud", questionando aqueles que lhe haviam sido mais próximos, desse modo chegando ao cerne de tamanha personalidade. Os jornalistas nunca resolverão o enigma, mas a resposta será dada na última cena do filme.

Pelo elaborado enredo de Herman J. Mankiewicz e Orson Welles - prémio da Academia -, pela panóplia de ângulos de câmara e pelo original trabalho fotográfico de Gregg Toland (nomeadamente o uso da profundidade de campo, em que tanto o foreground como o background surgem totalmente focados), Citizen Kane tornou-se num marco para as gerações de realizadores subsequentes pelas suas inovações formais.

Eleito como o melhor filme norte-americano de sempre pelo American Film Institute (em 2007) e como o melhor de todos os tempos pelas conceituadas revistas The Village Voice (E. U. A.) - votação de 2000 - Cahiers du Cinéma (França) - votação de 2008 - e Sight & Sound (Inglaterra) por um período de quarenta anos (entre 1962 e 2002 - 2.º na votação mais recente, em 2012), Citizen Kane é indubitavelmente uma das maiores obras cinematográficas da História, quer pelas suas inovações visuais quer pela sua constante busca epistemológica, decifrada ingloriamente apenas no final para os espectadores - ninguém conheceu verdadeiramente Charles Foster Kane, nem mesmo quem teve acesso ao gélido fogo da verdade.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Os melhores filmes de 1941 e 1958


Brevemente, a sinopse/comentário sobre dois dos mais conceituados filmes da História do Cinema. Para muitos, Citizen Kane (1941), de Orson Welles, e Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock, são os dois melhores filmes de sempre.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Quiz Cinema - Questão 16


Como já vimos, Ladri di Biciclette (1948), de Vittorio De Sica, venceu a primeira votação de "Melhor Filme de Sempre" da Revista Sight & Sound, em 1952. Apenas outros dois filmes venceram as votações seguintes: o primeiro de 1962 a 2002; o segundo em 2012.

Que filmes venceram as votações dos críticos de "Melhor Filme de Sempre" da Revista Sight & Sound entre 1962 e 2012?

Seis pontos para quem acertar primeiro nos dois filmes (títulos originais), vencedores de seis votações.

Assina o comentário com o teu nome e turma.

1948: Ladri di Biciclette - Vittorio De Sica (Itália)


Género: Drama
M/6
Sinopse/Comentário: O filme mais emblemático do neo-realismo italiano, movimento artístico surgido após a II Guerra Mundial que retrata (com representação de atores não-profissionais) as árduas condições de vida das camadas mais pobres da população. No início de Ladrões de Bicicletas, Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) fica empregado (colará posters pela cidade de Roma), mas necessita duma bicicleta para desempenhar o cargo. Adquire uma, mas, no primeiro dia de trabalho, a mesma é-lhe roubada. Com o filho Bruno (Enzo Staiola), Antonio procura a bicicleta pelas ruas de Roma como quem procura o sustento da sua família.

Eleito como o melhor filme de sempre na primeira votação do género pela revista Sight & Sound, em 1952, Ladri di Biciclette é um dos filmes mais humanistas da História do Cinema, com um final ímpar e doloroso.

sábado, 21 de janeiro de 2017

1994: Pulp Fiction - Quentin Tarantino (E. U. A.)


Género: Crime
M/16
Sinopse/Comentário: Um dia distinto na vida de dois gangsters, Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson), que espoletam e colidem com episódios violentos, amiúde fora do controlo. A originalidade do filme passa pelo desenrolar narrativo, com capítulos encaixados - ou analepses (recuos) e prolepses (avanços) constantes, à maneira da literatura do modernismo -, que desposicionam por momentos o espetador, mas também que bifurcam o caminho das personagens principais; inovadores são igualmente os diálogos longos e eloquentes, mesmo que de gangsters falando sobre assuntos triviais - as personagens de Tarantino (que escreve todos os seus argumentos) adoram ouvir a sua própria voz.

Palme d'Or no Festival de Cannes e Óscar de Melhor Argumento Original para um filme com uma banda sonora inesquecível (as escolhas versáteis de Tarantino são sempre precisas) e um elenco de luxo (incluem-se Uma Thurman, Harvey Keitel, Tim Roth, Bruce Willis, a portuguesa Maria de Medeiros, entre outros): Pulp Fiction marcou a recente/atual geração de cinéfilos, sendo a marca de água na obra de uma das vozes mais originais do cinema mundial das últimas décadas.

domingo, 15 de janeiro de 2017

2014: Boyhood - Richard Linklater (E. U. A.)


Género: Drama
M/12
Sinopse/Comentário: Doze anos da vida de Mason (Ellar Coltrane) e da sua família, iniciada quando Mason tem seis anos. A novidade? O filme foi rodado num período de doze anos (doze, um número de proporções temporais enorme), entre 2002 e 2013, um método inovador. Seguimos a vida de Mason desde o 1.º ano até à faculdade, testemunhando não só momentos significativos do seu crescimento, mas também o próprio crescimento/envelhecimento dos atores (Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater: ou a mãe, o pai e a irmã Samantha).

Filme premiado pela realização e como o melhor do ano em múltiplas cerimónias  (perdeu apenas nos Óscares para Birdman, de Alejandro G. Iñárritu, filme supostamente filmado num só take - não podia haver maior contraste!), Boyhood é seguramente uma das mais arrojadas propostas cinematográficas da História: nunca o Tempo foi tratado de forma tão subtil e impressiva - é impossível que o espectador não reflita acerca da sua própria experiência.

2013: La Grande Bellezza - Paolo Sorrentino (Itália)


Género: Drama
M/16
Sinopse/Comentário: Jep Gambardella (Toni Servillo), escritor consagrado por um livro escrito há décadas, celebra o seu 65.º aniversário rodeado pela decadente alta burguesia romana. Jep percorre a noite de Roma (as festas, os museus fechados, as tertúlias no seu luxuoso apartamento), refletindo acerca da sua vida de ócio e perda - o amor da sua vida foi deixado na adolescência.

La Grande Bellezza, vencedor de ínúmeros prémios (Melhor Filme de Língua Estrangeira nos The Oscars, Golden Globes, BAFTA), é uma evidente homenagem a La Dolce Vita (1960), de Federico Fellini, acerca da vacuidade da alta sociedade romana; do mesmo modo, a representação de Toni Servillo eleva-se ao nível do eterno Marcello Mastroiani de La Dolce Vita e de La Notte (1961), de Michelangelo Antonioni.


2012: Tabu - Miguel Gomes (Portugal)


Género: Drama, Romance
M/12
Sinopse/Comentário: Filme de duas partes, iniciado na Lisboa moderna sob o título "Paraíso Perdido". Pilar (Teresa Madruga), católica devota, visita Aurora (Laura Soveral), idosa que - Pilar supõe inicialmente  - alucina sobre o seu passado. Na verdade, Aurora discorre acerca do seu passado colonial, passado no Monte Tabu, em África. É este que é visitado na segunda metade do filme, "Paraíso", quando Aurora teve uma relação extraconjugal com Gian Luca Ventura. Este (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta) narra o romance com Aurora (Ana Moreira), uma arrebatadora história de paixão, surpreendente evento cinematográfico tendo em conta a Parte 1.

Tabu, vencedor do Prémio da Crítica Internacional FIPRESCI e do Prémio Alfred Bauer (filme mais inovador) no Festival de Berlim, é também uma homenagem ao grande mestre alemão F. W. Murnau, autor do magistral Sunrise (Aurora) e de Tabu, filmes de 1927 e 1931, respetivamente.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Os melhores filmes da década (2011-2014)


Aproveitando o embalo dos melhores filmes de 2016 (de acordo com as mais prestigiadas revistas internacionais), continuamos com a nossa lista dos melhores filmes de sempre, apresentando os melhores de anos recentes: 2011 a 2014. Dois autores norte-americanos, um italiano e - surpresa (?) - um português ficam com a nossa modesta distinção.